Ecce Homo


Ler Nietzsche pelos olhos inflamados de Nietzsche. Foi assim que me decidi, agora que chegou o tempo de o ler, relendo-o. Estive pois o fim-de-semana passado com o Ecce Homo. O livro é pequeno mas eu não consigo ler depressa. E Nietzsche é para ser lido devagar, embora se trate de uma escrita que convide à aceleração, pela toada, a exaltação, a poética imanente, significativa até no silêncio, el que anatemizou «a ilusão de acústica de que onde nada se houve nada há».
A vulgaridade convida a desprezá-lo porque ele se expõe ao ridículo com os insólitos títulos de capítulo que, tomados à letra, são a expressão da arrogância, uma insuportável vaidade. Só que não se pode tomá-lo à letra. É uma verdade que a sua própria biografia demonstra quando comparada com a obra, mesmo a mais imprecisa e por mais a mais rigorosa, a escrita por Stefan Zweig, por que o compreendeu, sentindo-o, no seu pulsar errante.
Doente, diminuído, carregado de fantasmas perseguidores e de ânsias frustradas, acossado pela sombra da cegueira, há na sua pessoa tudo menos o Super-Homem que nos trouxe. E assim sucessivamente.
Deixemos pois para depois o porquê de títulos como «porque sou tão sagaz», ou «porque escrevo tão bons livros», que não são ridículos apenas porque são dramáticos, e ensaiemos o capítulo final, a que chamou «Porque sou uma fatalidade», esse tremendo diálogo, que é o pavor de si próprio ante Zaratustra, afinal «Dionísos ante o Crucificado».Assim se encerra a obra.

Um batuque noctívago

Claro que se passeia sobre o ódio e a destruição e os desastres e os cataclismos, porque um avião caiu, um vulcão espirrou ou um tresloucado lançou-se aos tiros. E passeia-se sobre o amor, e a ternura e o carinho, porque um enamoramento surgiu, um bebé sorriu, um cão vadio nos abanou a cauda como um sorriso.
Se não houvesse assim vida não haveria modo de a viver, nem de saber porque bate o coração. Às vezes bate menos e a alma assusta-se. Mas no essencial ritma como um batuque noctívago em noite de queimadas ou como a placidez morna do poente ao entardecer, melancolia sem tristeza, comoção sem lágrimas, saudade sem ausência

A emplumada processadora escatológica

Passeando pela blogoesfera para completar textos e encontrar referências é como divagar por uma tresloucada livraria de um livreiro louco e com um fiel de armazém livreiro eternamente adormecido. Imagine-se encontrar esta pergunta «Quando a galinha come fezes, o que ela defeca ?», aqui! A webmaster do sítio chama-se Sidarta. A pergunta é um concurso. Houve quem respondesse «um fezão» e perdesse. Sabem o que respondeu a Regina, que nem assim conseguiu a vitória: «o teu cérebro, querido Sidarta!». Que pena Regina. Era a resposta certa à pergunta errada.

Uma janela

Vêr Lisboa do Alto das Amoreiras, ou ver tantos outros lugares. Não na estática de um fotografia, não no movimento de um filme do que foi, sim no como é e como está. Ver Lisboa, em Portugal, aqui. Ver Portugal, ver o Mundo. Bom passeio de domingo, ao entardecer.

Um domingo com o Senhor Wittgenstein

Eu sabia que o Bertrand Russell quando apresentou o Tractatus Logico-Philosophicus de Ludwing Wittgenstein escreveu algo como um elogio incomensurável e aditou que além disso e no «além disso» estava a ironia, a obra reunia os requisitos para ser admitida a doutoramento em Cambridge. O livro é e é ainda e não deixa de ser, mesmo em ironia, uma hierarquia de sentenças sobre os limites da linguagem. Foi escrito em parte nas trincheiras, corria a I Guerra. Num mundo em que os leitores, como as crianças, gostam de lendas, ficou famoso por isso, mesmo junto de quem o não leu. A Gulbenkian teve a gentileza de o mandar traduzir.
Escrevo isto por ter visto esta noite que saiu agora um livro sobre a família toda. Segundo leio, o crítico foi impiedoso quanto à iniciativa, o que nada quer dizer.
Ludwig Josef Johann Wittgenstein, austríaco, filho de um magnata do aço; renunciou à fortuna paterna e foi viver como professor primário, na Noruega. Sobre ele produziu-se um filme avant-garde, genial mesmo quando por vezes maçador. Sigam o link, está lá todo. É um bom programa de Domingo. Uma ida ao cinema.

Frio, frio

Acham que verdadeiramente está frio? Pois então a partir desta imagem risonha, sigam para este site de fotografias polares. Depois, é recolher ao igloo à espera que chegue o mês de Maio e com ele um pouco mais de calor. Para começar é aprender como se constrói. O filme leva um pouco de tempo a carregar mas vale a pena esperar porque amanhã vem mais frio. Vê-se aqui.

Ou talvez não

Primeiro foram as livrarias a abrir espaço para os gender studies. Havia livros só sobre o género era necessário encontrar modo de o sistematizar.
Em Portugal, talvez por se equivaler género a sexo, os gay and lesbian estão juntos à Literatura Erótica. Em outros países talvez.
Ora não só de gozo e libido se trata. Percebe-se isso dando conta do modo como os arquivos se organizam já para tal. Por exemplo o Catálogo dos Arquivos Nacionais Britânicos, aqui. Por detrás de tudo isso, mais do que uma prática, há um pensamento. Claro que sobre o assunto há notícias.Encontram-se 200 mil aqui. É um mundo.
Há pois uma boçalidade redutora, a de que a especificidade cultural homo e sáfica tem apenas a ver com questões de cama.
Naturalmente há uma erótica para aqueles, como há, veja-se aqui no site da Barnes & Noble, uma erótica tradicional vitoriana. Pobre Rainha Vitória, ou talvez não. Compreende-se o puritanismo.